M&A, cisões, fusões e valoração de cotas em holdings à luz do novo ambiente jurídico e da LC nº 227/2026
Decisões estratégicas empresariais relevantes — como fusões, aquisições, cisões societárias e reorganizações patrimoniais — exigem mais do que intuição ou percepção subjetiva de valor. Em um ambiente jurídico e econômico cada vez mais complexo, o valuation tornou-se instrumento técnico indispensável para embasar decisões, mitigar riscos e conferir segurança jurídica às operações.
A correta valoração de empresas, ativos e participações societárias é elemento central não apenas para operações de M&A, mas também para reorganizações internas, planejamento sucessório e estruturação de holdings empresariais e familiares.
O Que é Valuation e Por Que Ele é Estratégico
Valuation é o processo técnico de estimar o valor econômico de uma empresa, ativo ou participação societária, com base em critérios financeiros, econômicos e jurídicos. Mais do que um número, o valuation traduz expectativas de geração de valor, riscos do negócio, estrutura de capital e perspectiva de continuidade.
No contexto estratégico, o valuation permite:
- Tomada de decisões informadas e racionais;
- Redução de assimetrias de informação entre sócios, investidores e herdeiros;
- Base objetiva para negociações complexas;
- Fundamentação técnica para reorganizações societárias.
Empresas que negligenciam a valoração adequada frequentemente enfrentam disputas societárias, questionamentos fiscais e destruição de valor em operações mal estruturadas.
Valuation em Operações de M&A
Em operações de fusões e aquisições (M&A), o valuation é elemento estruturante da negociação. Ele orienta o preço, a forma de pagamento, cláusulas de earn-out, ajustes pós-fechamento e alocação de riscos entre as partes.
A ausência de valuation técnico adequado pode resultar em:
- Sobrevalorização ou subvalorização do negócio;
- Litígios posteriores entre compradores e vendedores;
- Questionamentos por investidores ou órgãos reguladores;
- Desalinhamento entre expectativas econômicas e realidade operacional.
A análise de valor, quando integrada à due diligence jurídica, permite identificar riscos ocultos, contingências e oportunidades de otimização da operação.
Cisões e Fusões: Valoração como Pilar de Equilíbrio Societário
Em cisões e fusões societárias, o valuation assume papel ainda mais sensível. A correta atribuição de valor aos patrimônios envolvidos é essencial para garantir equilíbrio entre sócios e evitar enriquecimento indevido de qualquer das partes.
A valoração adequada:
- Define a proporção de participação societária pós-operação;
- Sustenta a legalidade da reorganização;
- Reduz risco de impugnações judiciais e fiscais;
- Confere transparência e legitimidade ao processo decisório.
Em estruturas familiares ou grupos econômicos, a ausência de critérios técnicos de valoração frequentemente alimenta conflitos internos de difícil reversão.
Valoração de Cotas e Ações em Holdings
A estruturação de holdings empresariais e patrimoniais ampliou a relevância do valuation na valoração de cotas ou ações, especialmente em contextos de:
- Entrada ou saída de sócios;
- Doações em vida com reserva de usufruto;
- Planejamento sucessório;
- Reorganizações patrimoniais internas.
A definição do valor das participações deve considerar não apenas o patrimônio contábil, mas também a capacidade de geração de resultados, ativos intangíveis, riscos operacionais e estrutura de governança.
Valorações arbitrárias ou meramente formais expõem a holding a questionamentos judiciais, fiscais e societários, comprometendo a segurança jurídica da estrutura.
Metodologias de Valuation e Adequação ao Contexto
Não existe método único de valuation aplicável a todas as situações. A escolha da metodologia deve considerar o tipo de empresa, o objetivo da operação e o contexto jurídico.
Entre as metodologias mais utilizadas destacam-se:
- Fluxo de Caixa Descontado (DCF), adequado para empresas operacionais;
- Múltiplos de mercado, aplicáveis em setores comparáveis;
- Valor patrimonial ajustado, comum em holdings patrimoniais;
- Avaliações híbridas, combinando diferentes critérios.
A inadequação metodológica pode distorcer significativamente o valor apurado e comprometer decisões estratégicas.
Valuation e Segurança Jurídica no Novo Ambiente Normativo
O ambiente jurídico brasileiro tem reforçado a exigência de fundamentação econômica e racionalidade nas reorganizações societárias. Nesse contexto, a Lei Complementar nº 227/2026 representa marco relevante ao fortalecer critérios de substância econômica, transparência e coerência entre valor declarado e realidade econômica das operações.
Ainda que diversos aspectos dependam de regulamentação e consolidação interpretativa, o novo cenário normativo aponta para:
- Maior rigor na análise de reorganizações societárias;
- Valorização de critérios técnicos de avaliação;
- Redução de tolerância a estruturas artificiais ou desprovidas de fundamento econômico.
Nesse contexto, o valuation passa a exercer função não apenas estratégica, mas também defensiva, protegendo empresas e sócios contra questionamentos fiscais e jurídicos futuros.
Valuation como Ferramenta de Governança e Prevenção de Conflitos
Além de seu papel financeiro, o valuation atua como instrumento de governança corporativa e familiar. A adoção de critérios objetivos de valor reduz disputas internas, facilita negociações e contribui para decisões mais racionais.
Em grupos econômicos e empresas familiares, o valuation:
- Estabelece linguagem comum entre sócios e herdeiros;
- Diminui personalização excessiva das decisões;
- Facilita sucessões e reorganizações;
- Preserva relações pessoais e institucionais.
A ausência de critérios técnicos frequentemente transforma divergências econômicas em conflitos jurídicos de alta complexidade.
Considerações Finais
O valuation tornou-se elemento indispensável para decisões estratégicas empresariais contemporâneas. Em operações de M&A, cisões, fusões e estruturação de holdings, a valoração técnica confere racionalidade, transparência e segurança jurídica às decisões.
Diante do fortalecimento do ambiente normativo e da crescente exigência de substância econômica, especialmente à luz da LC nº 227/2026, empresas que negligenciam o valuation adequado ampliam sua exposição a riscos jurídicos, fiscais e societários.
A integração entre valuation, direito societário e planejamento estratégico é condição essencial para crescimento sustentável e preservação de valor no longo prazo.
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